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"Lolo: O Filho da Minha Namorada" - Uma conversa com Julie Delpy

Julie Delpy fala sobre seu novo filme "Lolo: O Filho da Minha Namorada", em cartaz nos principais cinemas do Brasil.
Com ótimas atuações, um ritmo agradável e cenas hilárias, "Lolo: O Filho da Minha Namorada" (Lolo) é uma ótima opção para quem curte uma boa comédia de humor negro. O filme fez parte da seleção do Festival Varilux de Cinema Francês e chegou aos principais cinemas do Brasil no dia 25 de agosto, nas cidades de São Paulo, Barueri, Santos, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Salvador, João Pessoa, Joboatão dos Guararapes e Curitiba.

Na trama, Julie Delpy interpreta a quarentona Violette, que vive em Paris e trabalha no mundo da moda. Durante suas férias no sul da França, ela encontra Jean-René, um modesto técnico de informática recém-divorciado. Contra todas as probabilidades, acontece uma química de verdade entre eles. No fim do verão, Jean René não perde tempo em se juntar a sua amada em Paris, mas suas diferentes origens sociais e Lolo, o filho dela de 19 anos, não tornarão as coisas tão fáceis.

A seguir, confira a entrevista que a Mares Filmes realizou com Julie Delpy, diretora, roteirista e estrela de "Lolo: O Filho da Minha Namorada".


COMO VOCÊ CRIOU O CONCEITO DO FILME?
 

Um dia nós estávamos brincando com o meu corroteirista Eugénie Grandval sobre as relações que o meu filho de seis anos – meu “pequeno imperador” – e eu teríamos daqui a 15 anos. Nós nos divertimos brincando com essa ideia e também gostamos de pensar num casal bastante improvável – ele é um cara um tanto simples, provinciano, e ela vem do mundo da moda – cujo relacionamento poderia ser perturbado pela presença do filho dela. Era uma storyline simples, com personagens, situações e diálogos engraçados.

NÓS ESTAMOS ACOSTUMADOS AOS PERSONAGENS DA “GERAÇÃO BUMERANGUE” NOS FILMES. LOLO – O FILHO DA MINHA NAMORADA É ÚNICO...

Sem querer entregar muito, você pode dizer que ele é diabolicamente manipulador. Eu sempre gostei de retratar personagens neuróticos. Também gosto de filmar personagens psicóticos. Eu conheço muitas pessoas assim. Eu não as acho nada engraçadas na vida real, mas nos filmes há algo nelas que me faz gargalhar alto.

VIOLETTE, A MÃE QUE VOCÊ INTERPRETA, É UMA MULHER DE QUARENTA E POUCOS ANOS QUE CONSTRUIU UMA CARREIRA NOTÁVEL PARA SI MESMA, MAS QUE AINDA ESTÁ NUM IMPASSE EM SUA VIDA AMOROSA.

Foi importante sentir as fraquezas e a vulnerabilidade dela. No início, sua melhor amiga, a personagem de Karin Viard, diz para ela: “Você é tão boa no seu trabalho e tão ruim nas suas relações pessoais”. É algo verdadeiro que tenho percebido nas pessoas ao meu redor – ser bom no que você faz e viver num apartamento caro não que dizer que você tenha sucesso na sua vida privada. Violette com certeza está perdendo alguma coisa – ela passou a vida trabalhando e cuidando do filho. Embora você entenda que ele sempre deu trabalho para ela, ela não fez muito para tornar as coisas melhores. Ela ainda é a mãe prendada, que passa manteiga no pão e cozinha os ovos dele no café da manhã. Como uma referência a Freud, os dois ovos que ela serve num oveiro duplo lembram um par de seios.



ATÉ AGORA, SEUS FILMES SE FOCARAM PRINCIPALMENTE NA FAMÍLIA. EM LOLO – O FILHO DA MINHA NAMORADA, VIOLETTE ESTÁ SOZINHA COM SEU FILHO.
 

Diferente dos meus filmes anteriores, os pais de Violette não estão presentes. Eu queria que a plateia sentisse que ela é um pouco desgarrada, que não tem um contexto familiar. Tudo o que ela tem são o filho e a amiga. Isso provavelmente é porque eu cheguei até o outro lado – eu me tornei mãe.

NO FILME, KARIN VIARD E VOCÊ FALAM SOBRE SEXO USANDO PALAVRAS INCRIVELMENTE DURAS. ESSA RISPIDEZ REFRESCANTE É BASTANTE RARA NOS FILMES FRANCESES.

Isso tem a ver com a criação que meus pais, Albert Delpy e Marie Pillet, me deram. Eu cresci lendo revistas satíricas como Charlie Hebdo e Hara Kiri. Quando tinha seis anos, li os quadrinhos de Reiser Gros Dégueulasse. Era bem grosseiro e inapropriado, mas ao mesmo tempo inteligente e engraçado e nem um pouco indecente. Eu também gosto de ultrapassar os limites e ser arrojada sem ser vulgar. É o meu estilo de escrita. Nós vivemos numa época em que somos cada vez mais podados por códigos de linguagem e retidão política. Isso não torna as pessoas melhores em nada – o medo impera e o fascismo voltou à moda.

QUANDO VIOLETTE SE JOGA NOS BRAÇOS DE JEAN-RENÉ DURANTE UMA FESTA POUCO CONVENCIONAL NO PAÍS BASCO, ELA INCONSCIENTEMENTE SE APAIXONA POR ELE. HÁ ALGO MUITO GERACIONAL NESSA HISTÓRIA DE AMOR QUE CRESCE ENTRE ESSES DOIS QUARENTÕES.

Eu achei interessante mostrar que o amor nem sempre é encontrado onde você espera – muitas pessoas procuram por alguém como elas. Por falar em geração, eu queria mostrar que pessoas que se apaixonam nessa idade se tornaram mais sábias de alguma forma. Quando você chega aos quarenta, se você se sente bem consigo mesmo e teve a sorte de encontrar uma alma bela, você não perde tempo. Você é menos apaixonado e ardente – e mais pé no chão. É mais saudável.

VIOLETTE TRABALHA COMO DIRETORA DE ARTE DE DESFILES DE MODA E JEAN-RENÉ É UM ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO DESPRETENCIOSO QUE MORA NO INTERIOR. COMO EM DOIS DIAS EM PARIS, VOCÊ TEM UMA ABORDAGEM MUITO AFIADA SOBRE ESSES AMBIENTES. É COMO SE O FATO DE VOCÊ TER VIVIDO EM LOS ANGELES POR TANTO TEMPO A TORNOU MAIS RECEPTIVA A COISAS QUE NÃO PRESTAMOS MAIS MUITA ATENÇÃO.


O fato de eu viver longe da França e voltar para cá regularmente provavelmente me ajuda a notar coisas diferentes – eu tenho mais percepção. Embora eu quisesse me afastar de qualquer caricatura, é um background como qualquer outro – eu me diverti mostrando o mundo da moda. Eu tenho um pouco de familiaridade com ele porque tenho amigos designers, incluindo Alexandre de Betak e Vanessa Seward, que me ajudaram com a escrita. Foi divertido mostrar a dimensão pouco usual da moda, como o leilão elegante feito no metrô.




COMO É COMUM EM SEUS FILMES, DANY BOON E VOCÊ FAZEM UM CASAL QUE SE DESENVOLVE E AMADURECE APESAR DOS DESENTENDIMENTOS.

Sim, isso tem a ver com a ideia de que o que não mata fortalece – é muito obsessivo, no meu caso. Muitas pessoas já me destruíram e eu sempre superei e fiquei mais forte. Afinal, isso é típico de todos os seres vivos – as células são destruídas e substituídas constantemente. Até um câncer afetá-lo.

VOCÊ PENSOU IMEDIATAMENTE EM VINCENT LACOSTE PARA O PAPEL?
 

Eu escrevi para ele. Nós trabalhamos juntos em O VERÃO DO SKYLAB há cinco anos. Vincent só tinha 17 anos na época e eu fiquei boquiaberta com seu talento, sua dedicação e sua atitude totalmente despreendida. Eu me lembro particularmente de uma cena em que ele tinha que contar uma história para as crianças debaixo da tenda e assustá-las durante o processo. Ele fez dez tomadas seguidas sem trocar as falas nem errar qualquer coisa. Eu gosto de trabalhar com pessoas como ele – ele é dedicado e respeita o trabalho em equipe.

FALE SOBRE DANY BOON.


Desde o início eu o tinha em mente para Jean-René. Por mais bem-sucedido que ele seja, Dany ainda tem muito de infantil e guarda uma ingenuidade da qual gosto muito. Ele disse que faria o filme três dias depois de ler o roteiro. As coisas costumam acontecer assim nos meus filmes. Eu penso em alguém que parece inacessível e a pessoa acaba fazendo o papel.

EM “LOLO: O FILHO DA MINHA NAMORADA”, KARL LAGERFELD APARECE COMO ELE MESMO E FRÉDÉRIC BEIGBEDER DÁ AULAS DE COZINHA BASCA NA TV. VOCÊ É UMA ESPECIALISTA EM CONVENCER CELEBRIDADES A APARECER EM SEUS FILMES...

Frédéric Beigbeder, que não sabe nem cortar uma pimenta vermelha, quanto mais cozinhar qualquer coisa, ficou encantado com o papel. Amigos que trabalharam para a Chanel me ajudaram a convencer o Karl Lagerfeld. Foi importante para mim ele estar no filme – Lagerfeld é uma das maiores figuras da moda, ele se tornou um ícone de si mesmo.
 


VIOLETTE E SUA AMIGA SÃO MULHERES INDEPENDENTES. ASSIM COMO VOCÊ...

Nesta profissão, eu rapidamente percebi que só poderia contar com o meu trabalho. Eu sou uma pessoa muito correta e sou incapaz de fazer minha própria publicidade, como mandar bilhetes de agradecimento ou caixas de champanhe, frequentar festas caras ou sair com pessoas de quem não gosto. Eu prestei atenção numa carta que Godard escreveu para mim quando DÉTECTIVE foi lançado, “Siga seu próprio caminho”, ele disse. “Você é o rio e eles são os dois bancos tentando canalizá-la e desvalorizá-la.” Eu escolhi defender minha própria visão e ter uma atitude que era só minha e de mais ninguém. Eu não tive escolha.

COMO VOCÊ DECIDIU ATUAR EM SEUS FILMES?


Eu não poderia produzir o filme se não atuasse. O fato de eu atuar dá o tom e a dinâmica. Eu fiz o máximo que pude nos sets de DOIS DIAS EM PARIS e DOIS DIAS EM NOVA YORK. Eu sou a força motora. Mas eu também gosto de estar só na cadeira do diretor – é muito gostoso.


QUE TIPO DE DIRETORA VOCÊ É? VOCÊ É INFLUENCIADA PELOS MÉTODOS DE TRABALHO AMERICANOS?
 

Os métodos nos Estados Unidos podem ser muito rígidos, então eu tento encontrar um equilíbrio. Eu sou uma pessoa direta e não suporto deixar as coisas rolarem, eu gosto de planejar cada tomada com precisão. Mas uma vez que estou no set e percebo – ou alguém me ajuda a perceber – que há uma opção melhor, eu não hesito em reconsiderar as coisas. Cinema é trabalho de equipe do início ao fim.

Eu gosto de pessoas que trabalham duro sem ficar estressadas com pequenas coisas e que sejam ao mesmo tempo dedicadas e engraçadas. Eu tento fazer a mesma coisa – eu tento fazer meu trabalho decentemente e ainda estar aberta a sugestões. Eu não tenho um método. Todos os atores, todos os dias, todas as cenas são diferentes – tento me ajustar.


VOCÊ COSTUMA SER COMPARADA COM WOODY ALLEN...

Eu adoro Woody Allen! Nós temos muitas neuroses em comum – nossa obsessão pela morte e pelo sexo e uma espécie de bulimia criativa também. Infelizmente, eu sou uma mulher e meus projetos frequentemente encontram dificuldade para decolar financeiramente falando – nos Estados Unidos, ser mulher, mesmo nos dias de hoje, tem um custo. Você pode fazer comédias românticas – não comédias de guerra. E ainda assim eu escrevi meu BANANAS! Kathryn Bigelow é uma das poucas diretoras que podem fazer um filme sobre a guerra no Iraque. Mas ela teve que lutar por 40 anos para chegar nesse patamar. A França é muito mais avançada nesse sentido.

ASSIM COMO WOODY ALLEN, VOCÊ ESTÁ MAIS INCLINADA PARA AS COMÉDIAS COMO DIRETORA.

É o meu gênero preferido, mas eu também gosto de dirigir dramas. THE COUNTESS foi um drama, embora tivesse humor nele. Meu próximo projeto também vai ser um – ele é um drama muito íntimo. E depois vou começar um projeto ambicioso sobre a aventura do cinema americano. Enquanto isso, vou desenvolver uma série sobre mulheres na casa dos 40 anos. Uma comédia, claro.


Leia também: 18 filmes franceses que chegam aos cinemas em 2016



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


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