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Resenha: "Chocolate" mostra a ascensão e queda do primeiro artista negro da França

'Chocolate" foi exibido ao longo do Festival Varilux de Cinema Francês. O filme entra em cartaz em 21 de julho com distribuição da California Filmes.
Após conquistar o público e a crítica com seu trabalho em filmes como "Intocáveis" e "Samba", Omar Sy está de volta aos cinemas nesta fascinante cinebiografia, dirigida por Roschdy Zem, do primeiro artista circense negro a conquistar os teatros de Paris. "Chocolate" é uma das produções mais aguardadas do Festival Varilux de Cinema Francês e também aborda o preconceito racial que existia na sociedade no início do século XX. 

Nascido em Cuba, o ex-escravo fugiu para a França e foi incorporado ao circo como um “canibal africano”. Sem documentação para permanecer no país, ele faz o que é preciso para ganhar seu sustento entretendo ou assustando o público no pequeno Circo Delvaux. Lá, ele conhece o experiente palhaço Footit, interpretado por James Thierrée, que lhe propõe uma parceria inovadora: eles criam a dupla “Branco e Augusto”, que conta com um palhaço mais atrapalhado e outro mais sério.

O sucesso instantâneo do número onde um agride o outro chama a atenção do dono de um grande e renomado teatro parisiense, que lhes oferece um contrato dos sonhos. Chocolat e Footit deixam para trás o pequeno palco do Circo Delvaux para conquistar o público exigente de Paris, mas a dupla de palhaços também descobre as regalias que andam junto com a fama e o dinheiro. 

Porém a relação entre Chocolat e Footit é um tanto intrigante e foi um dos tópicos favoritos dos jornalistas que viveram durante a belle-époque. Apesar dos boatos que circulavam sobre a vida boêmia (e irresponsável) de Chocolat, a comunidade artística tinha conhecimento que as rotinas da dupla eram desenvolvidas por Footit. Ele passa grande parte do filme exigindo foco de Chocolat, mas também reconhece que o carisma adquirido é mérito do parceiro.


Tudo começa a mudar quando Chocolat é preso no auge da carreira e passa por sessões de tortura na prisão. Lá, ele reencontra a dura face do preconceito racial, onde os policiais tentam "lavar" a cor de sua pele durante a cena mais dolorosa do filme. Chocolat percebe que mesmo com todo seu dinheiro e reconhecimento, ele só é amado pelo público porque se deixa apanhar de um branco todas as noites. 

Com muita compaixão e apostando na comédia física, Omar Sy fez um trabalho fantástico canalizando o espírito de um homem preso entre seu desejo de ser rico e livre. A cena onde ele finalmente desafia seu parceiro em público é certamente um dos momentos mais poderosos do filme. Apesar do triunfo do personagem ter um prazo de validade, Sy transmite toda a irreverência de Chocolat com muita naturalidade e atravessa pelas dificuldades junto de seu personagem em mais uma atuação emocionante.

Mais conhecido por seu trabalho no teatro e por ser neto de Charles Chaplin, James Thierrée é igualmente convincente na pele do carrancudo George Footit. Ao contrário de Chocolat, ele dedica todo o seu tempo para o circo e quase não possui vida social. O personagem é misterioso, mas o espectador logo percebe que existe algo maior que atormenta os pensamentos de Footit. Apesar de realizar insinuações sobre a sexualidade do personagem, o filme afasta qualquer referência de sua vida pessoal. 

Além de lamentar a maneira antipática como Footit foi apresentado, Thierrée conseguiu brilhar através da arte do circo, onde realizou uma bela homenagem ao avô. Por isso, o destaque vai para todas as cenas que retratam as apresentações da dupla de palhaços Footit e Chocolat. É possível perceber em cada rotina a influência do trabalho de Charles Chaplin, reconhecido mundialmente pelo uso da mímica e por popularizar o gênero de comédias pastelão.

Chocolat e Footit revolucionaram a rotina dos palhaços de circo e são uma inspiração para artistas até hoje. Como em quase todas as biografias, "Chocolate" entra em um terreno muito familiar ao mostrar a ascensão e queda de um artista, porém conta com uma bagagem histórica significativa. O filme não foge de seu lado sombrio e faz um retrato fiel da sociedade francesa da virada do século XX. Porém, ao fim da sessão, é triste perceber que a sociedade não mudou tanto assim, mesmo após várias descobertas, muitas pessoas ainda são obrigadas a conviver com o preconceito. 



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


4 comentários on “Resenha: "Chocolate" mostra a ascensão e queda do primeiro artista negro da França

    1. Adoro filmes do Cinema Varilux, mas se você não assiste no festival é muito difícil de encontrar!!! Ótima resenha!!! Parabéns!!!

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      1. Muito obrigada, Camila! Vc viu que saiu um calendário de estreias dos filmes exibidos no festival?

        Confira aqui: http://www.peliculacriativa.com.br/2016/06/calendario-estreias-filmes-festiva-varilux-de-cine-frances.html

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    2. Ainda preciso conferir. James Thierrée é um artista incrível. Notável sua semelhança a Chaplin. Um filme que certamente irei apreciar. Gostei do texto, muito bom. Abraços.

      Rodrigo
      https://cinemarodrigo.blogspot.com.br/

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      Respostas
      1. James Thierrée é incrível mesmo. Espero que goste do filme e volte para contar o que achou ;)

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