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Resenha de "Meu Rei", filme com Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel

O filme chega aos cinemas em 22 de setembro com distribuição da Mares Filmes.
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A resenha de hoje é sobre uma produção que vem dividindo opiniões por onde passa: estou falando de "Meu Rei" (Mon Roi), em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês. O filme, dirigido por Maiwenn ("Polisse"), faz um retrato notável de um casal autodestrutivo, maravilhosamente interpretados por Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot - vencedora do prêmio de Melhor Atriz em Cannes.

Na trama, Tony (Bercot) sofre de amor por Georgio (Cassel), um homem charmoso, moderno, irresponsável e manipulador - características que conquistaram seu coração à primeira vista. Ela deixa suas necessidades de lado para lidar com a personalidade perturbada do amado. Após uma grave fratura na perna, que a levou até um centro de reabilitação, Tony encontra tempo para refletir sobre diversos momentos de sua vida. Porém ela também precisa se recuperar do trauma emocional causado por seu relacionamento de dez anos com Georgio.

Quantas milhares de vezes o espectador já assistiu a casais se apaixonando nas telas do cinema? Existem filmes repletos de grandes declarações amorosas, algo que somente Hollywood possui a capacidade de vender repetidamente, mas é preciso reconhecer quando um diretor consegue retratar esse processo com naturalidade. Foi exatamente o que Maiwenn realizou em seu quarto filme como diretora. Ela colocou seus personagens em primeiro lugar, deixando Bercot e Cassel completamente livres para construir a intimidade de um casal que passou por uma montanha-russa de emoções. 


Rodado em ordem cronológica, a trama de "Meu Rei" apresenta o ponto de vista da protagonista através de uma série de flashabacks. Enquanto Tony está em recuperação, imagens de sua vida são reveladas e suas dores físicas e mentais começam a fazer todo sentido. O espectador percebe rapidamente que está diante de um relacionamento condenado, desde a primeira troca de olhares de Tony e Georgio em uma casa noturna parisiense. Embalados por uma trilha-sonora sensual, Tony fica paralisada ao vê-lo na pista de dança, cercado de amigos VIPs. Ela imediatamente o reconhece da época quando era estudante e trabalhava em um bar frequentado por Georgio.

O primeiro contato desse futuro casal é fabuloso. Utilizando um velho truque de Georgio para conquistar mulheres, Tony consegue chamar atenção jogando gotas de água em seu rosto. Infelizmente Georgio não a reconhece, mas a atitude inusitada de Tony foi o bastante para despertar sua curiosidade. Na saída da balada, ele a convida para tomar café da manhã em seu apartamento e conquista o coração de Tony. Porém seu irmão Solal, interpretado por Louis Garrel, não está convencido das boas intenções de Georgio. Ele tenta alertá-la, ao longo de todo o filme, com seu senso de humor implacável.

Apesar de mostrar os melhores e piores momentos na vida de um casal, o filme de Maiwenn não é mais um romance comum para ver ao lado da pessoa amada e sair suspirando do cinema. O que faz de "Meu Rei" especial é a maneira como toda a equipe construiu a história. Acredito que a ideia dos opostos se atraem nunca foi trabalhada com tanta dedicação no cinema. Há rumores de que o filme, escrito por Maïwenn e Etienne Comar, foi inspirado no relacionamento da própria diretora com Jean-Yves Le Fur, mas o fato nunca foi confirmado.  

Em um filme onde os diálogos são marcados por questões emocionais complexas, a verdadeira beleza do trabalho de Maiwenn está justamente na maneira como ela conduziu os atores - influência da sua experiência prévia como atriz. A cineasta costuma buscar a espontaneidade em cada cena, uma tendência vista com frequência no cinema francês, mas todos sabem que a liberdade de criação pode ser uma bênção ou um pesadelo para determinado elenco. 



Em "Meu Rei", Bercot e Cassel provaram que estavam dispostos a desafiar um ao outro e ainda demonstraram uma capacidade de improviso extraordinária. Eles construíram maravilhosamente a intimidade desse casal e ainda mostraram com realismo os sentimentos envolvidos em um relacionamento marcado por abusos. Enquanto Bercot confessou ter ficado extremamente intimidada com sua personagem, Cassel disse que lutou para transformar Georgio em um homem melhor.

A obsessão dos personagens é o combustível que move a história. Ao mesmo tempo em que Tony é torturada pela falta de sensibilidade de Georgio, ela não encontra forças para se libertar do marido, um "rei" que só existe em sua imaginação. Do outro lado, ele
também não consegue abrir mão de seus vícios para formar a família que sempre sonhou.

A performance de Emmanuelle Bercot em "Meu Rei" é avassaladora. Apesar dos altos e baixos de sua personagem, Bercot é capaz de sensibilizar o espectador através de cenas de puro desespero, especialmente quando ela precisa cuidar do filho recém nascido, mas encontra-se depressiva e desorientada. Meu destaque vai para a cena onde Tony encontra um amigo e quase esquece o filho na farmácia. O nível de entrega de Bercot é surpreendente e ela já se tornou uma das minhas atrizes francesas favoritas.


É preciso repetir o elogio para seu parceiro de cena, pois a performance de Vincent Cassel também é extraordinária e acredito que este foi um dos melhores trabalhos de sua longa carreira no cinema. Por mais que muitas pessoas associem sua imagem com vilões, Cassel é um ator intenso e multifacetado. Ele apresentou uma versão indomável de Georgio e parece ter construído esse personagem sem grandes esforços.

Ao contrário do que muitos dizem, não encaro Georgio como um vilão. Quando um filme é capaz de expor as imperfeições humanas com tanta naturalidade é quase um crime procurar quem é quem dentro da história. Cassel fez um retrato incrível da possessividade masculina, mas ele também mostrou a vulnerabilidade do homem dentro de um relacionamento amoroso. Seu personagem não consegue viver sem a esposa, um bom exemplo é quando ele não aceita ser trocado por uma reunião de trabalho. 

Segundo Maïwenn, ela precisou tomar algumas decisões difíceis em "Meu Rei", entre elas eliminar a maioria das cenas onde a personagem principal atua como advogada. Realmente o filme não mostra a rotina de seus personagens individualmente para não criar um ponto de distração para os espectadores. É compreensível a decisão da cineasta, mas acredito que ela poderia ter reduzido ainda mais o número de cenas sem comprometer a trama.

É claro que cada espectador vai fazer sua própria leitura do filme, mas além de retratar os abusos sofridos por Tony ao longo dos anos, "Meu Rei" também representa o belo processo de reconstrução da personagem. Ainda é preciso reconhecer os esforços de Maiwenn em trazer à tona todas as dores de seus personagens com tanta naturalidade. Tenho certeza que "Meu Rei" vai continuar a travar debates e despertar a curiosidade do público para os demais projetos realizados por esta equipe.



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


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