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Entrevista: Lionel Baier fala sobre seu novo filme, o emocionante "La Vanité"

Com estreia prevista para dia 14 de julho, "La Vanité" foi exibido em 50 cidades brasileiras ao longo do Festival Varilux de Cinema Francês 2016, que aconteceu entre os dias 08 a 22 de junho. O filme de Lionel Baier aborda um tema trágico e complexo, com uma mistura de comédia absurda e melancolia.

"Garçon Stupide" (2004) foi o primeiro longa do cineasta, que estudou literatura na Universidade de Lausanne antes de iniciar carreira no cinema. Após sua estreia, ele dirigiu "Another Man" (2008) e "Low Cost" (2010), ambos selecionados para o Festival de Locarno. Lionel Baier co-fundou a Bande à part Films, em 2009. 

"La Vanité" é seu filme mais recente e foi exibido na ACID no Festival de Cannes. A trama mostra um arquiteto aposentado com uma doença incurável que vai para a Suíça para recorrer ao suicídio assistido. Segundo a Variety, o filme de Baier retrata "o lado mais leve da eutanásia - se pode dizer que isso existe - e explora com mais graça e bom humor do que se poderia esperar."

A seguir, confira uma entrevista com o cineasta Lionel Baier, onde ele revela a inspiração por trás de "La Vanité", seu amor pelas paisagens suíças e sobre sua percepção da realidade no cinema.

Em "La Vanité", você aborda o delicado tema do suicídio assistido com humor e sensualidade. De onde surgiu esta ideia?

LB: Primeiro de tudo é por causa de que o suicídio assistido é um assunto atual que afeta vários países da União Europeia e é algo que os suíços aprovaram rapidamente. Eu tenho a impressão que isso faz sentido para uma geração nascida logo após a guerra, uma geração que viu a chegada da pílula e do aborto e que sempre foi capaz de escolher. É normal para esta geração ter uma palavra a dizer para tudo até o fim. Os suíços trabalharam rápido para passar a legislação neste assunto pois está no DNA deles,
com a democracia, para tratar de questões sociais a nível político. Divirto-me que na Suíça as coisas são tão organizadas, que em um país onde tudo tem seu lugar, o assunto da morte também foi regulamentado. Meu ponto de partida foi uma história que alguém me contou, sobre um garoto que se prostituía para pagar seus estudos e uma noite, em um hotel, no quarto ao lado, estava um homem e uma mulher que fariam o suicídio assistido. Isso mexeu comigo, a questão de que você pode ser a parede divisória de alguém que decidiu organizar sua morte e, como é típico na Suíça, decidiu fazer de uma forma muito metódica.

Em vários de seus filmes, você recupera a paisagem suíça, dando a ela uma dimensão quase mágica e surreal sem qualquer clichê. Isso é intencional?

LB: A Suíça é como uma ilha no meio da Europa, é uma espécie de cartão postal vivo. Eu queria que o filme, que foi filmado em estúdio, tivesse esta sensação de uma caixa de chocolate. É o cenário perfeito. Eu sinto que estou vivendo em um enorme set de filmagem, como se as cidades como Lausanne, Geneva e Zurique são apenas sets. E seus habitantes são figurantes. Meu filme é um pouco como um conto de fadas e a Suíça é praticamente um país de conto de fadas onde tudo é perfeito, tudo tem seu lugar.

Em seus filmes você demonstra um talento muito pessoal para retratar o que é normalmente citado como "vida real". Qual é sua relação com a "vida real"?

LB: Eu não acredito na vida real no cinema, de modo algum. Cinema não tem nada a ver com a realidade e penso que, no fundo, é simplesmente para produzir algo que é nem mais nem menos real do que a vida real. Por outro lado, o cinema opera com um código de movimento humano que é um pouco diferente do que vivemos na vida real e algumas vezes este código, com este certo tipo de artificialidade, nos ajuda a melhor entender o mundo que nos cerca. Eu acredito que para ser bem sincero em um filme, sobre as
emoções e objetivos dos personagens, você não deve hesitar em entrar em uma irrealidade bastante ampla, pois, surpreendentemente, essa é a melhor maneira de compreender a realidade. Eu acho que todas as formas artísticas veem o mundo através de um filtro de irrealidade. Em meus filmes, existem muitos elementos autobiográficos, mas, como todas pessoas modestas, eu tendo a dizer que muitas coisas que podem parecer muito pessoais, mas, na verdade, são para me ajudar a me proteger e me
esconder melhor, e nunca mostrar que eu sou realmente. Existem também muitos elementos da realidade que eu me sinto muito próximo. A relação com a morte é, por exemplo, algo que me interessa, pois é completamente irreal. Representa a forma mais absoluta do desconhecido. 

Em "La Vanité", existe um personagem que diz: "Eu não penso que exista algo de natural na morte", e eu concordo.

Entrevista realizada por Muriel Del Don, Cineuropa, em 13 de Julho de 2015.



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


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