DESTAQUES
Pesquisar

Resenha: "Ave, César!" é uma carta de amor aos anos dourados de Hollywood

"Ave, César" abriu o Berlinale 2016 e conta com um elenco fabuloso: George Clooney, Josh Brolin, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Channing Tatum, Alden Ehrenreich, Frances McDormand e Jonah Hill.
Há alguns anos a crise de criatividade em Hollywood é um dos tópicos mais comentados entre os cinéfilos, mas existem duas pessoas nesta indústria que continuam a surpreender o espectador. Estou falando dos irmãos Joel e Ethan Coen. Eles se destacaram nos últimos 25 anos através de grandes comédias de humor negro, como "O Grande Lebowski" e "Queime Depois de Ler", e thrillers épicos, como "Onde os Fracos Não Tem Vez", filme ganhador de quatro Oscars.

Também há quem diga que o desafio de fazer uma boa comédia é maior quando comparado a um belo filme dramático, obviamente este não é o caso dos irmãos Coen. Mas a cada ano que passa, analisando a quantidade de comédias lançadas vs. a quantidade de filmes do gênero que entram na minha lista de favoritos, concordo cada vez mais com esta afirmação. Realmente existem muitas opções, para todos os gostos, mas sempre tenho bons motivos para comemorar quando uma nova comédia dos irmãos Coen é anunciada.

Acho que já deu para perceber que sou fã do trabalho dos diretores, mas o novo longa dos irmãos Coen (que chegou aos cinemas em 14 de abril através da Universal Pictures) é uma verdadeira homenagem aos anos dourados de Hollywood, marcada por figuras como Gene Kelly, Debbie Reynolds e Hedda Hopper. Na verdade, os diretores buscaram inspiração nas vidas de dois famosos executivos da MGM, E. J. Mannix e Howard Strickling, que trabalharam para abafar inúmeros escândalos envolvendo as estrelas de cinema da década de 1950.



"Ave, César!" (Hail, Caesar!) mostra a história do "fixer" Eddie Mannix (Josh Brolin), um homem que faz o possível e o impossível para preservar a imagem das estrelas da Capitol Pictures, entre elas Baird Whitlock (George Clooney), Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) e DeeAnna Moran (Scarlett Johansson). Ele é forçado a tomar medidas ilícitas para garantir a produção de um dos maiores filmes do estúdio: o épico romano Hail, Caesar!

Mas entre os diversos problemas enfrentados por Mannix, como a gravidez inesperada de uma atriz, o descontentamento de um famoso diretor com sua nova contratação e as constantes ameaças de duas colunistas de fofoca rivais (que são gêmeas idênticas), o que realmente tira o sono do executivo é o desaparecimento da maior estrela da Capitol Pictures. Baird Whitlock foi sequestrado por um grupo de roteiristas comunistas descontentes com o sistema imposto pelos grandes estúdios de Hollywood, mas Mannix está disposto a pagar o que for necessário para recuperar seu astro e dar continuidade ao seu ambicioso projeto.

Como você já deve imaginar, o filme está repleto de referências importantes da sétima arte, mas também retrata um período sombrio na história de Hollywood e cumpre esta tarefa com muito humor. Trata-se da questão sócio-política, vista em "Trumbo: Lista Negra", onde muitos artistas afiliados ao Partido Comunista foram perseguidos pelo Comitê de Atividades Antiamericanas. Porém o objetivo dos irmãos Coen nunca foi estabelecer uma discussão sobre as diferenças entre o capitalismo e comunismo.



Na verdade, eles aproveitaram a oportunidade para realizar uma sátira que engloba cada setor da indústria de cinema, passando pelos grandes autores, pelas estrelas em ascensão e até pelos profissionais que atuam como figurantes. O espectador possui acesso total ao estúdio Capitol Pictures e os irmãos Coen conduzem o "tour" com muita sabedoria: dos cenários grandiosos do Império Romano até a sala claustrofóbica da editora C.C. Calhoun (Frances McDormand).

Uma das cenas mais bonitas de "Ave, César!" é quando a personagem de Scarlett Johansson prepara sua nova rotina de nado sincronizado e veste uma brilhante cauda de sereia - coreografia inspirada em "A Rainha do Mar" (1952), com Esther Williams. Não há muito o que dizer de Johansson neste filme, pois seu tempo em cena foi mínimo, mas a atriz estava deslumbrante com o figurino criado por Mary Zophres.

Este também foi o caso de Tilda Swinton, mas a atriz arrancou muitas risadas com sua performance das gêmeas Thora e Tessália Thacker. As duas colunistas de fofoca atormentam a vida de Mannix em busca do próximo furo e fazem uma clara referência à Hedda Hopper. Ainda mais deslumbrante é o número musical ("No Dames") em homenagem ao ator Gene Kelly. Não sou grande fã do trabalho de Channing Tatum, mas ele é capaz de realizar coreografias incríveis e, por isso, preciso elogiar seu número de sapateado na pele de um marinheiro apaixonado.



Também é preciso elogiar o homem que está no centro de tudo, aquele que é o verdadeiro alicerce do filme: Josh Brolin. O ator viveu um dos personagens mais sérios de sua carreira e demonstrou convicção na pele de Eddie Mannix. Mas esta não é a primeira vez que o público assiste aos feitos de Mannix no cinema, o personagem já foi interpretado por Bob Hoskins em "Hollywoodland - Bastidores da Fama" (2006).

Mas a grande surpresa do filme é o jovem ator Alden Ehrenreich, que trabalhou em "Dezesseis Luas" e "Blue Jasmine". Ele interpreta uma estrela em acensão e presta homenagem aos atores cowboys da época: Howard Keel, Dick Foran, James Ellison e Tim Holt. Ele conseguiu se destacar em meio de um elenco maravilhoso e protagonizou um dos meus momentos favoritos de "Ave, César!": a cena onde o personagem de Ralph Fiennes tenta dirigir Hobie Doyle no elegante "Merrily We Dance".

Em sua quarta colaboração com os irmãos Coen, George Clooney percorreu um terreno muito familiar com Baird Whitlock, personagem baseado em três astros de Hollywood: Robert Taylor, Charlton Heston e Kirk Douglas. O ator fez um retrato carismático e ingênuo da maior estrela da Capitol Pictures. Clooney conseguiu criar um personagem adorável e provocou boas risadas ao atravessar por situações completamente ridículas.



Não há dúvidas que os irmãos Coen conhecem profundamente a história de Hollywood, mas é impressionante como eles possuem a capacidade de reutilizar antigas fórmulas em seus filmes. Digo isso, pois os bastidores da indústria cinematográfica já foram retratados maravilhosamente pelos diretores em "Barton Fink - Delírios de Hollywood" (1991) - inclusive os estúdios Capitol Pictures é citado neste filme.

Um dos grandes atrativos de "Ave, César!" é justamente este elenco magnífico, mas acho que o filme não conseguiu distribuir com equilíbrio o tempo entre os diversos personagens da trama. Mesmo com cenas de destaque, é realmente uma pena que as participações de Scarlett Johansson, Tilda Swinton e Ralph Fiennes, por exemplo, foram tão resumidas. Sem falar em Jonah Hill, que marca presença durante dois minutos do filme.

"Ave, Caesar!" não está entre os melhores filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen, mas ainda vale a pena conferir. Estamos diante de uma comédia acima da média, com um elenco maravilhoso, diálogos deliciosos e uma história repleta de referências da Era Dourada de Hollywood. O filme é uma carta de amor ao cinema clássico e merece toda a sua atenção.



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


0 comentários on “Resenha: "Ave, César!" é uma carta de amor aos anos dourados de Hollywood

    Sua opinião é muito importante!