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Crítica de "Spotlight - Segredos Revelados", filme indicado a 6 Oscars

"Spotlight - Segredos Revelados" destaca o esforço coletivo de um elenco extraordinário, liderado por Michael Keaton, Mark Ruffalo e Rachel McAdams.
"Spotlight - Segredos Revelados" abriu a temporada de premiações como o grande favorito ao Oscar, mas ele começou a perder força diante de seus concorrentes, principalmente após o sucesso de "O Regresso" (The Revenant), premiado no Globo de Ouro e no Director's Guild Awards (DGA). O longa de Tom McCarthy também recebeu diversos prêmios, incluindo o SAG Awards em 2016.

Desde sua estreia, o filme está dividindo a opinião do público e da crítica. Surgiram muitos comentários negativos em volta dele, que parecem aumentar a cada dia. Particularmente, acho uma pena ver esta bela produção rotulada como um filme "chato", "desanimador" ou "entediante". Existem pessoas que preferem contestar, mas não há dúvidas de que "Spotlight - Segredos Revelados" é o filme mais importante sobre jornalismo desde "Todos os Homens do Presidente" (All The President's Men). 

Não é uma tarefa fácil transformar cenas dos bastidores de uma investigação em algo dramaticamente eficiente e interessante, seja sobre o caso que quebrou os alicerces da Igreja Católica ou sobre o escândalo que derrubou Richard Nixon da presidência dos EUA, na década de 1970. Acredito que os dois filmes superaram os mesmos obstáculos e se tornaram fundamentais para quem gosta do tema.

"Spotlight - Segredos Revelados" destaca o esforço coletivo de um elenco extraordinário, liderado por Michael Keaton, Mark Ruffalo e Rachel McAdams. Não existem altos e baixos ao longo do filme, pois a maneira como a história foi narrada permite que o espectador faça parte da equipe Spotlight. Acredito que muitas pessoas ficaram esperando um grande momento de revelação que simplesmente não chegou. Mas é preciso compreender que esta não é a proposta do filme.

Outro aspecto que talvez não agradou o grande público é justamente o foco da investigação: o lado negro da Igreja Católica. Porém esta não é a primeira vez que a instituição foi denunciada no cinema, o longa "Philomena" (2013) também expõe a crueldade de alguns membros da igreja na Irlanda. A equipe do jornal The Boston Globe recebeu um Prêmio Pulitzer pela matéria que revela diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo crime.

Não sou religiosa, mas é extremamente interessante e relevante descobrir que por trás de uma instituição que promove a fé, o amor e o respeito entre as pessoas, também existem seres humanos capazes de cometer crueldades incalculáveis, não só na cidade de Boston, mas no mundo inteiro. A importância de "Spotlight - Segredos Revelados" não se resume basicamente na quantidade de Oscars que ele pode vir a ganhar, mas o filme também possui a capacidade de colocar este assunto em destaque na mídia.

Visualmente e verbalmente, o longa de Tom McCarthy trabalha com a precisão, narrando uma história sobre homens e mulheres de verdade, os famosos heróis da vida real. O cineasta parece ter se inspirado no conceito onde "menos é mais", sendo assim, ele conseguiu se livrar de possíveis clichês do gênero. Neste filme não existem grandes discussões, flashbacks sensacionalistas, nem situações que colocam seus personagens no limite.

Não é sempre que um diretor consegue lançar seu melhor e pior filme no mesmo ano, mas foi exatamente isto que aconteceu com Tom McCarthy. É difícil acreditar que ele também dirigiu o pavoroso "Trocando os Pés" (The Cobbler), estrelado por Adam Sandler. Felizmente o cineasta atingiu um resultado bem diferente com "Spotlight - Segredos Revelados". O filme não atropela detalhes da investigação e engaja o espectador com um ritmo constante e personagens fascinantes.



"Spotlight - Segredos Revelados" não encontrou dificuldades no caminho para uma emocionante trama jornalística. Longe do glamour de Hollywood, o filme não procura passar uma lição de moral ao público, o que é mais um ponto em seu favor. Também é preciso admirar a maneira como os diferentes personagens foram cuidadosamente delineados. Enquanto Robby, interpretado por Michael Keatoné líder da equipe, a personagem de Rachel McAdams, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, percorre a cidade atrás de depoimentos e entrevista as vítimas.  

Mas provavelmente o grande destaque do filme é Mark Ruffalo, também indicado ao Oscar, na categoria de melhor ator coadjuvante. Ele viveu o personagem Mike Rezendes e fez um retrato físico brilhante de um jornalista que nasceu para investigar. O roteiro também ajudou Ruffalo a se destacar, pois ele recebeu as cenas de maior carga emocional. Inclusive, um dos diálogos mais emocionantes é justamente quando ele explica para Sacha que a investigação "quebrou" com sua confiança na instituição. 

Stanley Tucci também está ótimo no papel do advogado que luta contra a Igreja Católica. Ele conseguiu brilhar ao lado de Ruffalo com uma performance comprometida, mostrando que está deixando seus dias de Caesar Flickerman, personagem da saga "Jogos Vorazes" (The Hunger Games), para trás. Já Liev Schreiber está praticamente irreconhecível como o editor do jornal, mas a calma e convicção que ele transmite para sua equipe é inspiradora.

Também é preciso destacar todos os atores que interpretaram as vítimas entrevistadas pela equipe Spotlight. O filme retratou cuidadosamente suas histórias de abuso e em nenhum momento perdeu o foco principal. É difícil não se emocionar com os depoimentos das vítimas, especialmente quando a pessoa demonstra coragem para compartilhar seu relato e acaba em frente de uma igreja, olhando para um jardim repleto de crianças felizes.

"Spotlight - Segredos Revelados" entrega exatamente o que é esperado de um filme que retrata uma investigação tão dolorosa. Ao mesmo tempo que ele reúne as informações necessárias, apresenta provas meticulosas do crime, o filme também é movido por um sentimento crescente de horror. Tom McCarthy fez questão de iniciar com uma cena que leva o espectador ao ano de 1976, onde um sacerdote é brevemente detido pela polícia de Boston e depois liberado nas mãos da Arquidiocese.  

O espectador descobre as terríveis consequências deste crime somente em 2001, através da matéria publicada pela equipe Spotlight, com alegações de que este mesmo sacerdote chegou a molestar mais de 80 crianças durante seu tempo na igreja. Ao longo do filme, um dos personagens desabafa: "Eles dizem que é apenas abuso físico, mas é mais do que isso, foi abuso espiritual. Você sabe por que eu aceitei tudo? Porque os sacerdotes deveriam ser os mocinhos."

Como tantos outros filmes sobre jornalismo, "Spotlight - Segredos Revelados" aposta na rotina de uma redação e acompanha as conversas das pessoas que fazem parte desse ambiente, mostrando suas anotações, pensamentos e fontes. Mas o filme não é uma propaganda do The Boston Globe, pelo contrário, Tom McCarthy também expõe os erros da publicação ao revelar as inúmeras vezes que os editores encobriram os relatos de abuso que bateram em sua porta.

Mesmo se o filme perder a tão esperada estatueta do Oscar, é impossível desmerecer este belo trabalho de equipe, mérito também de um roteiro bem estruturado, escrito por Tom McCarthy e Josh Singer, que não permite que seus personagens roubem a cena do outro. Por fim, "Spotlight - Segredos Revelados" comprova que é possível ver além das manchetes e obter a história por trás da história.

Veja também: Conheça os heróis da vida real que inspiraram o filme Spotlight - Segredos Revelados



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


4 comentários on “Crítica de "Spotlight - Segredos Revelados", filme indicado a 6 Oscars

    1. Bela crítica, bem consistente com o filme. Ainda que ele não arrebate prêmios, tocou numa ferida necessária, e espero que fomente mais ainda esse debate muito importante pra sociedade.

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    2. Eu realmente não entendo nada de cinema. Confesso que dormi no cinema assistindo Spotlight. Na minha opinião muito chato. Pareceu que foi premiado por conta de uma perseguição a Igreja Católica... Os críticos da Igreja adoram isso.

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    3. Um grande filme e atrapante. Neste filme podemos ver Liev Schreiber para em uma série muito diferente Ray Donovan .onde ele trabalha em uma firma de advocacia de limpeza e alterando cenas de crime caracterização; Vemos aqui como um editor de recém-nomeado de um jornal. Sem dúvida que é versátil na sua interpretação, tornando-se um filme e ator de televisão completa.

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