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Crítica de "O Regresso", filme que vai trazer o Oscar para Leonardo DiCaprio

"O Regresso" recebeu doze indicações ao Oscar (confira aqui), incluindo nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator e Ator Coadjuvante.
Vingança é um prato que se come frio e Leonardo DiCaprio conhece o significado deste ditado, pois ninguém sofreu mais, em nome da arte, nesta temporada, do que sua pessoa. Além de comer fígado cru de bisonte, dormir em uma carcaça de animal, e suportar condições climáticas extremas, durante as filmagens de "O Regresso" (The Revenant), DiCaprio explorou o verdadeiro significado da luta pela sobrevivência, ao interpretar o caçador de peles Hugh Glass.

O longa é baseado em uma história real, narrados no livro de Michael Punke. Hugh Glass era um caçador que trabalhou nas margens do Rio Missouri, em 1820. Ele foi atacado por um urso durante uma expedição e ficou gravemente ferido, mas foi deixado para trás por seu grupo de caçadores de pele, liderados por Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Indignado por ter sido abandonado, Glass encontrou forças para subir a montanha em busca de seus colegas infiéis e de vingança.

Jim Bridger (Will Poulter) e John Fitzgerald (Tom Hardy) foram os caçadores que abandonaram Glass na floresta, contrariando a ordem do líder do grupo de ficar com ele até a hora final e lhe proporcionar um funeral digno. Porém, o foco principal é a saga de superação de Hugh Glass e sua sede por vingança. Ele deixou poucos vestígios na história, mas Iñárritu e DiCaprio não tiveram problemas para transformar o homem em um mito nas telas do cinema.

Ninguém sabe com precisão o que aconteceu com Hugh Glass, mas a mesma história já foi narrada em "Fúria Selvagem" (1971), filme de Richard C. Sarafian. Na trama, o personagem chamado Zachary Bass, interpretado pelo ator Richard Harris, é ferido por um urso e deixado para morrer pelos colegas na floresta. O astro John Huston também está no elenco.

Atualmente, venho observando uma onda de ódio com o trabalho de Alejandro G. Iñárritu. De um lado estão as pessoas que ainda não superaram o fato que "Boyhood - Da Infância à Juventude" não recebeu o Oscar em 2015, e de outro estão aqueles que não gostaram do excesso de confiança de Iñárritu em "O Regresso". Acho que qualquer bom entendedor de cinema sabe que um filme nunca será unânime, mas julgar uma obra pelo nível de simpatia do autor é estupidez.

Além de "Birdman - A Inesperada Virtude da Ignorância", Iñárritu é aclamado por projetos como "Babel", "Biutiful" e "Amores Brutos". Após a merecida consagração da Academia, é preciso admirar que o cineasta mexicano não tirou férias e investiu em mais um projeto ambicioso. Entre diversas decisões ousadas e irresponsáveis, como filmar sob a luz natural em locações remotas do Canadá e da Argentina, ele atingiu um resultado primoroso em "O Regresso", e também entregou uma experiência sensorial surpreendente, que proporciona ao espectador uma visita ao inferno abaixo de zero.




A beleza das imagens capturadas pelo cineasta é tão magnífica, que, muitas vezes, este inferno congelante parece um paraíso. A eficácia com que Iñárritu nos transporta para um outro tempo e lugar, e sua capacidade de manter a qualidade visual, ao longo de 156 minutos, é algo impressionante. Como espectador, você sente-se exausto ao fim da sessão. É raro ver filmes que provocam o seu imaginário o tempo todo, onde o protagonista enfrenta uma dor física e emocional incompreensível.

"O Regresso" mostra que não veio a passeio logo de cara, quando apresenta uma cena épica de batalha entre o grupo de caçadores e uma tribo nativa nas margens do Rio Missouri. A força do homem e da natureza entram em colapso de uma forma muito simbólica, com flechas voando no céu e apenas alguns sobreviventes de cada lado. Nesta mesma cena, um nativo luta ao lado dos caçadores e recebe a proteção de Hugh Glass, trata-se de seu filho, Hawk (Forrest Goodluck).
 

Há muitas discussões sobre a famosa cena do ataque do urso. Como já disse antes, Iñárritu gravou o longa em condições naturais, mas o animal foi criado através de computação gráfica, e isso deixou muitos enfurecidos com o cineasta. Realmente é um pouco chocante saber que existem efeitos especiais em um filme conhecido por seu estilo prático, mas se o objetivo era criar um ataque devastador, com feridas abertas, ossos expostos e um corpo ensanguentado, Iñárritu cumpriu o dever perfeitamente.

"O Regresso" também marca a nova colaboração entre Alejandro G. Iñárritu e Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia e ganhador do Oscar por "Birdman" e "Gravidade". Não será uma surpresa se Lubezki receber o terceiro Oscar consecutivo com este filme. Ele realizou um trabalho onde o horizonte não parece ter fim, onde a natureza é a sua paleta de cores, onde a neve nunca foi tão branca e o céu tão azul. Há também elementos místicos neste filme, que lembram a estética de Terrence Malick em "O Novo Mundo".

"O Regresso" é realmente um grande filme. Na verdade, trata-se de um projeto ambicioso que vai entrar para a história do cinema. Mas como nem tudo é perfeito, tive a impressão que Iñárritu não conseguiu manter o equilíbrio a partir da segunda parte do filme. A jornada de Hugh Glass ganhou uma abordagem mística, e, por alguns minutos, o filme perdeu o foco.

Mas a grande estrela do longa é Leonardo DiCaprio, e o ator encontrou em Hugh Glass um verdadeiro teste de superação. Há quem diga que ele é um dos grandes injustiçados do Oscar, afinal esta é sua sexta indicação ao prêmio. Não concordo com esse discurso de vítima da Academia, pois DiCaprio nunca esteve tão comprometido e tão intenso como em "O Regresso". Ele se desvinculou de tudo o que já fez no cinema e se entregou a cada momento aterrorizante, de corpo e alma.

É como já disse no início da resenha, ninguém sofreu mais, em nome da arte, do que ele, nesta temporada. Muitos atores iriam sucumbir com um desafio do tamanho de Hugh Glass, mas DiCaprio transformou o homem em um mito, melhor ainda, em uma verdadeira fortaleza incapaz de desistir perante a morte. Sua performance é hipnotizante. É por essas e outras razões, que o Oscar de Melhor Ator já tem dono em 2016.



O elenco de apoio também é maravilhoso, com destaque para Domhnall Gleeson que teve uma temporada extraordinária, marcada por grandes filmes (“Brooklyn,” “Ex Machina” e “Star Wars: O Despertar da Força”). Mesmo com poucos minutos em cena, Gleeson é a consciência entre os caçadores de pele e sempre está disposto a tomar a decisão correta. Enquanto isso, Tom Hardy é o vilão da trama. Mesmo indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, ele entregou uma performance um tanto irregular.

Will Poulter conseguiu surpreender. Ele também atuou como a consciência moral da história, mas sua ingenuidade foi trabalhada de uma forma tão precisa que merece destaque por aqui. Enquanto isso, Hardy saiu dos trilhos em algumas cenas e deu a impressão de que passou por uma dor física e emocional tão intensa quanto de Hugh Glass.

"O Regresso" é o tipo de filme que faz perguntas ao espectador, trabalha com a ideia de sobrevivência em condições extremas, e ainda possui a capacidade de permanecer em nossas mentes como mais do que um clássico sobre o homem versus a natureza selvagem. É possível que este filme seja lembrado por muitos como apenas o primeiro Oscar da carreira de Leonardo DiCaprio, mas o longa de Alejandro G. Iñárritu também merece ser lembrado por suas imagens sublimes e cenas viscerais. 


VEJA TAMBÉM: Você sabe quem foi Hugh Glass? Saiba mais sobre a vida do homem que inspirou o personagem de Leonardo DiCaprio



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


3 comentários on “Crítica de "O Regresso", filme que vai trazer o Oscar para Leonardo DiCaprio

    1. Se Leonardo Dicaprio não ganhar a academia ainda vai ficar mais queimada do que já esta

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      1. Pois é, mas duvido que a Academia escolha outro candidato. Ele teve a performance mais desafiadora entre todos, em nível físico e emocional.

        Valeu pela visita! ;)

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    2. A atuação e a entrega ao personagem feita pelo DiCaprio foi incrível! Sem dúvida ficará marcado na história dele como um de seus melhores filmes. Sensacional do começo ao fim.

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