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Resenha de "Sicario: Terra de Ninguém", um dos melhores filmes lançados em 2015

Segundo Denis Villeneuve, o filme é um poema obscuro, onde a fronteira é apenas mais uma linha a ser cruzada.
"Sicario: Terra de Ninguém" chegou aos cinemas em um ano marcado por debates da corrida eleitoral nos Estados Unidos, onde políticos republicanos discutem a necessidade de construir um muro que protege a fronteira com o México. Mas essa linha tênue (e muitas vezes obscura), que também divide os dois países da América do Norte, corre o risco de se tornar um clichê do cinema moderno. 

A guerra pelo controle de drogas na fronteira EUA/México já foi explorada anteriormente por alguns diretores, como Steven Soderbergh em "Traffic" (2000). Também é preciso levar em consideração que vivemos em um mundo pós "Breaking Bad". Mesmo com todas essas referências do cinema e da televisão, acredito que "Sicario: Terra de Ninguém" não poderia ser mais relevante.


O filme, dirigido pelo franco-canadense Denis Villeneuve ("Incêndios" e "Os Suspeitos"), é uma trama complexa, sobre o duelo entre o poder e a lei, o domínio dos cartéis mexicanos, e aquela dose de brutalidade típica para uma produção do tema, com direito a display de corpos mutilados pela cidade de Juárez - a cena é chocante, porém extremamente importante para o filme.




Na trama, Emily Blunt interpreta Kate Macer, uma agente do FBI recrutada para uma operação na fronteira, após sua participação na invasão de uma verdadeira casa de horrores perto de Phoenix, no Arizona. Seu novo chefe é o agente especial Matt Graver, interpretado por Josh Brolin. Mas o verdadeiro centro das atenções é o misterioso Alejandro, personagem de ninguém menos que Benicio Del Toro - um ex-promotor cujos pesadelos representam o ritmo nervoso da trama. 


Embora o verdadeiro motivo da missão ser mantido a sete chaves, Alejandro insiste que trazer o grande chefe do cartel mexicano, interpretado por Bernardo P. Saracino, à justiça seria como encontrar uma "vacina" para os horrores da guerra que acontece na fronteira do EUA/México.


Com um roteiro afiado, escrito por Taylor Sheridan, "Sicario: Terra de Ninguém" usa aviões particulares, vias públicas e túneis clandestinos para se locomover além das fronteiras, tanto morais e geográficas. O título enigmático significa "matador" em espanhol, mas há mais do que um assassino neste filme marcado por questões morais. 




Obviamente, essas são as raízes do trabalho de Denis Villeneuve. Sua obsessão pela dualidade foi amplamente explorada em "Os Suspeitos" (Prisioners) e "O Homem Duplicado" (Enemy). No entanto, o que torna "Sicario: Terra de Ninguém" uma experiência muito especial é a natureza visceral dos momentos de ação, e a maneira como o diretor conduz o filme para um desfecho fora do comum.


Já li algumas críticas sobre a maneira como a cidade de Juárez foi retratada no filme, e concordo que ele contribui para sua fama de "cidade sangrenta". Mas também acredito que as decisões tomadas pela direção, e por toda a equipe responsável pela fotografia de "Sicario: Terra de Ninguém", exploram com maestria nossas ansiedades e expectativas.

A pessoa por trás da direção de fotografia do longa é Roger Deakins ("Onde os Fracos Não Tem Vez" e "Operação Skyfall"), um nome que sinceramente espero ver como um dos indicados ao Oscar em 2016. Ele conseguiu retratar uma terra decadente, com desertos implacáveis, e com cenas de violência que imprimem uma realidade brutal. 

O grande momento do filme é confronto durante um engarrafamento na ponte que liga o México aos Estados Unidos. Não quero entregar muitos detalhes, mas é preciso reconhecer que Denis Villeneuve e Roger Deakins construíram uma cena de engarrafamento mais emocionante que qualquer perseguição em alta velocidade.

Denis Villeneuve também merece elogios por sua decisão em escalar uma mulher no papel principal. O cineasta revelou que Taylor Sheridan foi pressionado pelos produtores, em diversos momentos, para re-escrever o papel para um homem. Isso é um problema que finalmente está ganhando destaque em Hollywood, mas não vou entrar neste debate agora.



"Sicario: Terra de Ninguém" é um filme extremamente equilibrado quando o assunto é performance e não há dúvidas que Emily Blunt enfrentou o maior desafio entre seus colegas de elenco. Ela conquistou a atenção de Denis Villeneuve após sua atuação em "A Jovem Rainha Vitória" (The Young Victoria) e ganhou experiência no gênero de ação com o longa "No Limite do Amanhã" (The Edge of Tomorrow). 

A perspectiva da personagem de Blunt conduz o espectador através da linha de fogo. Mesmo com uma aparência frágil, de um peixe fora d'água, Kate Macer também é muito determinada. Ela se aproxima do público a partir do momento que começa a observar as atitudes de quem está no comando. Suas dúvidas sobre o verdadeiro objetivo da missão são as mesmas do espectador, então ela passa a questionar cada passo de seus colegas.

Emily Blunt alcançou o equilíbrio entre vulnerabilidade e determinação, força física e emoção. Sua personagem é a consciência moral do filme, ela é a única pessoa que se sente extremamente incomodada ao invadir o país vizinho e quebrar diversas regras internacionais. Porém esperava uma protagonista mais ativa. Kate Macer está sempre um passo atrás de seus colegas e é excluída de todas as decisões. Ela realmente está ali para "pegar carona" e viver a pior experiência de sua carreira no FBI. 

Denis Villeneuve também arrancou uma performance sólida de Josh Brolin. Ele interpreta um irônico e despojado agente do FBI, que gosta de manter todos em sua volta completamente desinformados. Enquanto Benicio Del Toro tem um propósito muito diferente, que é revelado lentamente. 



"Sicario: Terra de Ninguém" não é o primeiro filme sobre o universo da guerra das drogas em que Del Toro rouba a cena. Acho válido lembrar que o ator também foi o destaque de "Traffic" (2000), filme pelo qual ganhou Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Ele é apenas o segundo artista porto-riquenho a ganhar o famoso prêmio da Academia. 

Benicio Del Toro nunca esteve tão seguro de si. À primeira vista, o mercenário Alejandro é visto somente como o grande vilão da trama, mas seus tiques nervosos também escondem um passado muito triste. A construção do personagem foi realmente espetacular. Del Toro não precisou de muitas palavras para mostrar o que seu personagem estava sentindo, ele é um ator muito expressivo e de presença magnética.

Ele também foi muito competente ao explicar seu processo de preparação para "Sicario: Terra de Ninguém", Del Toro disse que "só precisa entender o personagem, não precisa concordar com ele". Esta declaração faz parte da entrevista realizada por uma revista norte-americana com os atores favoritos ao Oscar (clique aqui e confira), e tudo indica que Benicio Del Toro estará entre os indicados.

Entre todos os lançamentos da temporada, não existe nada parecido com este filme. Denis Villeneuve conseguiu surpreender o espectador até o último segundo - característica presente em todos os seus projetos. O terceiro ato de "Sicario: Terra de Ninguém" é uma verdadeira caixa de surpresas. O cineasta entrou no terreno de filmes como "A Hora Mais Escura" (Zero Dark Thirty), de Kathryn Bigelow, e investiu em cenas táticas, guiadas por equipamentos noturnos.

Considerando tudo o que já foi dito aqui (o que não foi pouco), "Sicario: Terra de Ninguém" pode ser dividido em três atos, onde cada capítulo apresenta uma cena de grande impacto. Ao longo de seus 121 minutos, o filme se alimenta de segredos e carrega a ameaça constante de violência. O mais assustador é que ele narra um mundo que nunca vamos compreender, repleto de atrocidades, que está bem debaixo do nosso nariz.

Veja também: Emily Blunt combate o tráfico de drogas em primeiro trailer de "Sicario"



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


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