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Resenha: Jessica Chastain brilha no filme "Miss Julie" (2014)


Com Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton, "Miss Julie" é a estreia do dia 21 de maio.
Liv Ullmann sucumbiu à guerra de classes e repressão presentes na peça de August Strindberg. A história original foi escrita em 1889, mas “Miss Julie” saiu do papel e ganhou uma versão cinematográfica extremamente elegante, ambientada nas terras úmidas da Irlanda.

Durante a véspera de uma noite de verão, as classes se misturam. É quando os mais ricos celebram a vida lado a lado com os mais pobres, ou seja, é quando tudo está liberado e não existem barreiras. Apenas três personagens ilustram a história de “Miss Julie”, e Jean é o primeiro a entrar em cena.

A maioria dos conflitos presentes no filme acontecem na cozinha e são explorados ao máximo pelas lentes de Ullmann. A cineasta criou um clima sufocante e avassalador, mostrando que Julie não pertence àquele cenário. Ullmann é uma expert em realizar filmes que lembram o universo do teatro e este é o caso de “Miss Julie”. Ela concedeu total liberdade para seu elenco, sendo assim, são as atuações o verdadeiro destaque do filme.

Os três personagens são interpretados por Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton, e cada um deles enfrentou o desafio de trabalhar com monólogos complexos, sem truques cinematográficos. Muitos dos diálogos são entregues em uma única tomada, sem cortes - característica que também está presente nos filmes realizados por Alejandro González Iñárritu. Não é preciso dizer que o elenco de “Miss Julie” está em plena forma e não deixou a desejar.
Toda a história gira em torno de uma conversa que cresce com o desespero, até atingir o caos completo e seu estágio final de destruição. Quando a personagem Julie, interpretada por Jessica Chastain, sente na pele as consequências de seus atos, a verdadeira beleza do filme vem à tona.

Chastain nunca esteve tão vulnerável frente às câmeras, sua atuação é extraordinária. Ela vive momentos de fraqueza e poder em intervalos minúsculos. É possível sentir uma avalanche de emoções caindo em sua direção. Sua agonia é tão evidente que o espectador começa a imaginar como a personagem sobreviverá.

As cenas onde Julie encontra-se sozinha, presa em seu quarto com um passarinho na gaiola, ou vagando bêbada pela mansão como uma mulher arruinada, são poderosas. Não posso deixar de imaginar qual foi o motivo que levou as maiores premiações do cinema a ignorar por completo a atuação de Chastain em "Miss Julie". O mistério permanece no ar.


Colin Farrell também está fantástico na pele do serviçal Jean. À primeira vista ele é o brinquedinho de sua patroa e recebe ordens absurdas, mas a tentação em seus olhos grandes e famintos falam mais alto. Ele deixa o seu relacionamento com Kathleen, interpretada por Samantha Morton, em segundo plano para viver um romance impossível com a dona da casa.

O nome de Farrell sempre provoca um pouco de desdém perante ao público, que logo lembra de seus inúmeros erros no cinema. Mas Farrell, como Matthew McConaughey, está caindo nas graças da crítica através de uma série de atuações sólidas – de “Na Mira do Chefe” à “Ondine” e “Caminho da Liberdade”. Assim como sua colega de elenco, Farrell trouxe o nível certo de sensibilidade e charme para o personagem, parece que ele nasceu para interpretar Jean.

Já a terceira peça que completa o filme é Kathleen. Ao contrário de Julie e Jean, ela segue as regras da sociedade e respeita a hierarquia da casa. Mesmo com poucas cenas, Morton também está ótima. Suas expressões foram capturadas em tomadas generosas e a falta de diálogo da personagem não impediu a atriz de deixar sua marca. Ela conseguiu emocionar com suas reações indignadas ao comportamento de Jean e Julie.

É preciso admitir que “Miss Julie” é um filme estranho, onde os três personagens vivem em um completo caos emocional e social. Não é uma tarefa fácil acompanhar e compreender os dilemas que cada personagem enfrenta nesta noite de verão interminável. Mesmo assim, os melhores momentos do filme são movidos pelo caos.

Dito isso, “Miss Julie” não possui o objetivo de agradar grandes multidões. A reação de cada espectador vai depender de como ele se sente ao assistir três pessoas em conflito, entregando diálogos como em um palco de teatro. Particularmente, acho a proposta fantástica. Ullmann criou um filme que pertence aos seus atores, eles ficam em evidência o tempo todo e assumem o controle do roteiro. É inspirador ver trabalhos assim no cinema.

Apesar de “Miss Julie” ser um filme instável, ele funciona pelo nível de qualidade apresentado pelo elenco. Infelizmente, seus 129 minutos de duração atrapalham o ritmo do filme. Talvez Ullmann conseguiria um resultado de maior impacto com um tempo menor em tela. "Miss Julie" demora muito para decolar e quando finalmente acontece, o filme não recebe total atenção do espectador.



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


3 comentários on “Resenha: Jessica Chastain brilha no filme "Miss Julie" (2014)

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