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Crítica: 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave - 2013)

O novo filme do diretor britânico Steve McQueen é uma adaptação das memórias de Solomon Northup: um homem negro livre do norte de Nova York, que foi seqüestrado, enviado para o Sul e vendido para o dono de uma plantação da Louisiana em 1841.

“12 Anos de Escravidão” (12 Years a Slave) não é apenas um trabalho grandioso, é um filme necessário. Ele serve para confrontar uma prática vivenciada nos Estados Unidos por quase 250 anos. Muitos críticos afirmam que este é o melhor filme já feito sobre a escravidão na América do Norte. 

É muito complicado colocar grandes rótulos, porém “12 Anos de Escravidão” merece toda atenção recebida, desde sua passagem pelo Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF). Mas qual seria a sua verdadeira concorrência neste quesito?

Muitos cineastas já se aventuraram explorando o tema da escravidão, mas nem todos conseguiram entregar filmes de alto nível. Quentin Tarantino (Django Livre), Victor Fleming (E O Vento Levou), Steven Spielberg (Amistad) e D.W. Griffiths (O Nascimento de Uma Nação) são alguns exemplos de sucesso.

Provavelmente o exemplo mais vivo na mente das pessoas é o fantástico “Django Livre” (Django Unchained), mas é impossível compará-lo com “12 Anos de Escravidão”. As propostas adotadas por Quentin Tarantino e Steve McQueen não podiam ser mais distantes. Enquanto o filme de Tarantino proporciona aquela satisfação de vingança, repleta de ironia, sangue e humor, “12 Anos de Escravidão” deixa o espectador completamente desprovido de um sentimento de esperança ou justiça.

É claro que a linguagem e a violência em “12 Anos de Escravidão” faz você estremecer, mas a brutalidade retratada aqui é de uma elegância inconsolável, despertando os sentimentos mais profundos no espectador. Toda essa beleza é graças a genialidade de Steve McQueen. O cineasta não tem a intenção de fazer uma nação inteira sentir a culpa de um passado longo e doloroso, pois os livros de história falam por si.

Como em seus filmes anteriores (Hunger e Shame), Steve McQueen abordou o lado “feio” da humanidade logo de cara e sem rodeios, utilizando imagens impactantes para deixar a sua marca nas nossas mentes. O roteiro de "12 Anos de Escravidão" foi escrito por John Ridley e através da sua narrativa, onde o protagonista mostra o passo a passo da sua luta pela sobrevivência, o filme consegue alcançar um patamar que nunca foi explorado antes em um filme do tema.

Com um elenco formidável, composto por Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Brad Pitt e Alfre Woodard, é possível destacar três atuações gigantescas e merecedoras de prêmios. O primeiro destaque vai para o protagonista,interpretado por Chiwetel Ejiofor. O ator britânico se entregou ao personagem, mostrando um show de heroísmo e da presença que caracteriza toda a jornada de Salomon Northup.

A categoria de coadjuvante também tirou nota máxima. Michael Fassbender é o fiel escudeiro de Steve McQueen e atualmente tornou-se artigo de disputa dos grandes diretores de Hollywood. Toda essa reputação não veio de graça, o ator está entregando trabalhos intensos com uma frequência absurda. A sua atuação na pele do vilão Epps é carregada de crueldade, mas ele consegue justificar esse comportamento com maestria. 

O conflito na mente do seu personagem é bem claro: ele vive um casamento infeliz, é alcoólatra e possui esse grande sentimento de culpa ao pensar na paixão que sente por uma de suas escravas. O sentimento humaniza o personagem e, ao mesmo tempo, o demoniza. Ele desperta as atitudes mais cruéis retratadas no filme, justamente pela necessidade de reprimir essa paixão proibida e indevida de Epps.

Por fim, a novata Lupita Nyong’o faz história no papel da escrava Patsey. A atriz, de origem queniana, é responsável por uns dos destinos mais viscerais já retratados no cinema. A história da sua personagem é tão devastadora que deixa o espectador engasgado durante muitas cenas. Além da sua presença imponente, Nyong’o consegue demonstrar a dose certa de fragilidade na sua personagem, destacando-se entre um elenco poderoso e extenso.

“12 Anos de Escravidão” é um retrato da vida como ela era para dezenas de milhares de pessoas, há menos de 200 anos atrás. À medida em que o filme termina, não há discurso, lição de moral ou vingança, apenas o retrato de uma época inconsolável.



nanomag

Publicitária, cinéfila e blogueira nas horas vagas. Vivo em Curitiba, sou formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.


2 comentários on “Crítica: 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave - 2013)

    1. Particularmente, não me recordo de ter visto um filme tão realista sobre o período escravocrata.

      De fato não tem como comparar com Django devido as abordagens totalmente distinta, mas eles formam uma ótima sessão dupla sobre o tema.

      Além desses três nomes do elenco que você exaltou, é incrível como cada ator consegue chamar a atenção mesmo com pouco tempo de tela, casos de Paul Dano, Benedict Cumberbatch e Paul Giamatti.

      Até o momento, é o meu preferido dos indicados ao Oscar.

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      1. O nosso também Bruno, resta torcer agora. Já levou o Globo de Ouro e o BAFTA, tá faltando o Oscar :)

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